Pare! Pense! Consulte!

Pare! Pense! Consulte! Um analgésico, tomado sem prescrição médica, pode mascarar problemas de saúde mais sérios do que uma "simples" dor de cabeça. As estatísticas mostram os reais perigos da automedicação.

  Uma prática comum, mas perigosa, entre
 os brasileiros ocupa o topo das causas 
de intoxicação no País: a automedicação.
Tomar aquele comprimido sem receita ou 
comprar aquele outro remédio para dor de
estômago por conta própria, sem uma avaliação
prévia de um profissional, pode custar
 caro. O Brasil registrou mais de 100 mil casos
 de intoxicação em 2007, segundo dados 
do Sistema Nacional de Informações Tóxico-
Farmacológicas (Sinitox).

Os medicamentos são hoje responsáveis 
por cerca de 30% do total de casos de intoxicação,
ficando à frente dos produtos
 de limpeza, agrotóxicos e alimentos estragados
ou contaminados. De acordo com a
Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária),
os analgésicos, os antitérmicos e os
anti-inflamatórios representam as classes
de medicamentos que mais intoxicam.

A médica Cláudia Pinto Vieira, clínica geral
do Hospital Regional de São José, relata
que chegam à emergência pacientes com
quadros de automedicação. “É comum as
pessoas correrem para a farmácia quando
estão doentes. Tomam o remédio, mas nem
sempre melhoram. Aí vão para o hospital. Em
caso de sinusite, por exemplo, há situações
de pessoas que tomaram anti-inflamatório,
mas continuam com os sintomas. Nos casos
de gripe, a automedicação é ainda mais comum”,
conta a médica.

Mas quais os riscos reais de tomar remédio
sem receita médica? Eles podem camuflar
sintomas ou alterá-los, dificultando o
diagnóstico médico posterior, além de criar
resistência ao tratamento. É o caso do uso
de antibióticos mal administrados, que podem
criar uma alta resistência bacteriana,
complicando o tratamento.

O uso frequente de comprimidos para dor
de cabeça sem prescrição médica, o que é
fácil de verificar entre pessoas de nosso convívio,
pode piorar o quadro. Segundo o neurologista
Luiz Paulo de Queiroz, há chances
de os medicamentos cronificarem o problema.
Ele recomenda procurar um médico nas
seguintes situações: dor de cabeça mais de
dois dias por semana ou enxaqueca mais de
três vezes por mês. 

Se a pessoa já toma algum medicamento de
uso contínuo, o cuidado deve ser ainda maior.
Nestes casos, a intoxicação resulta da interação
entre as substâncias dos remédios. A médica
Cláudia relata que é imprescindível a palavra do
médico. “No caso de um hipertenso, por exemplo,
até um antidescongestionante gripal pode
reagir negativamente em seu organismo”. E
complementa com mais um exemplo: em pessoas
que têm glaucoma, aumento da pressão
ocular, o uso de alguns colírios pode provocar
efeitos colaterais indesejados.

A advogada Cristine Dias relembra uma situação
em que passou mal
pelo uso de um medicamento.
Ela conta que estava
sofrendo com prisão
de ventre e decidiu tomar
laxantes por conta própria,
achando que resolveria o
problema. Resultado: ganhou
outro. “Minha boca inchou e a pele interna
da boca ficou muito sensível, machucando
facilmente. Mesmo alguns meses após parar
de tomá-los, de vez em quando a boca inchava
depois de eu comer alguns tipos de alimentos”,
explica Cristine.

Em outra situação, a decisão de não se automedicar
salvou sua vida. Ela teve apendicite,
mas não tomou nenhum remédio, procurou
imediatamente um médico para saber o que
aquela forte dor significava. “Dois amigos meus tiveram o mesmo problema, mas tomaram
Buscopan e mascararam o problema. Quando
descobriram que era apendicite, ela já tinha
estourado, fazendo com que a operação fosse
bem mais complicada”, relata Cristine.

Mas o que leva os brasileiros a se automedicar?
A médica Cláudia acredita que a prática está
relacionada a alguns fatores principais, dentre
eles: à cultura de querer resolver tudo em casa
que o brasileiro tem; à falta de acesso ao sistema
médico de saúde; ao acesso facilitado à compra
de medicamentos; e em parte ao incentivo das
propagandas de TV, que, segundo a médica,
muitas vezes induzem a
compra. “Acho um absurdo
alguns artistas de TV
fazerem propaganda estimulando
o uso de medicamentos”,
opina Cláudia.
Para ela, a advertência “Ao
persistirem os sintomas, o
médico deverá ser consultado” que aparece ao
final dos comerciais de TV, e que é exigida por
lei, está completamente equivocada. “Deveria
ser o contrário: a pessoa deveria primeiro procurar
um médico, para só depois tomar os medicamentos
prescritos”, explica a médica.

Ainda há muito que avançar em programas
e ações de conscientização dos riscos da automedicação,
bem como numa legislação e fiscalização
com regras mais rígidas, coibindo a
prática. Mas, da década de 90 para cá, foram registrados vários avanços neste sentido. Segundo a Lei nº 9.294/96,
só é permitida a publicidade dos medicamentos que não requerem
receita médica para serem comprados. Além disso, ela só poderá
conter afirmações provadas cientificamente. Também fica proibida
a propaganda voltada para crianças e adolescentes.

No passado, compravam-se diversos tipos de comprimidos no
supermercado e até no mercadinho do bairro. Hoje, a venda é permitida
por lei apenas em farmácias e drogarias, sendo necessário
manter um farmacêutico durante todo o período de funcionamento
do estabelecimento. Porém, esta regra não é suficiente para
preservar as pessoas dos riscos. Isso porque, hoje, muitos medicamentos
ainda podem ser comprados sem receita médica.

Mas, algumas medidas do Governo sinalizam para novos avanços.
Nas unidades da Farmácia Popular do Brasil espalhadas por
todo o País só é possível comprar os medicamentos com a receita
médica em mãos. Esse programa do Ministério da Saúde foi criado
em 2004 e busca ampliar o acesso aos medicamentos essenciais a
preço de custo. Hoje, já são 521 farmácias em 405 municípios, com
uma média de 950 mil atendimentos mensais.

A farmacêutica da unidade do Estreito, em Florianópolis, Thais
Santos Alves, explica que para retirar qualquer um dos 107 itens da
lista de medicamentos é preciso apresentar a receita. Não importa
se o remédio for um analgésico ou medicamento de uso contínuo,
como para hipertensão, diabetes ou colesterol.
As pessoas, aos poucos, vão se acostumando. Thais conta que
é comum a farmácia receber pessoas que tentam comprar sem
receita médica. “Elas acham ruim, mas aos poucos vão compreendendo
que é para o bem delas e trazem a receita”, conta a farmacêutica.
A Farmácia Popular aceita apenas as com validade de
no máximo um ano. Thais afirma que todos esses cuidados buscam
evitar possíveis intoxicações. Ela acredita que eles podem no
futuro valer também para as farmácias privadas.

 

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